A política brasileira sempre produziu personagens curiosos.
Já tivemos o candidato coronel, o candidato salvador da pátria, o candidato técnico, o candidato outsider, o candidato do povo, o candidato empresário, o candidato influencer e até o candidato que aparece de quatro em quatro anos para lembrar que existe.
Mas uma nova espécie vem se espalhando silenciosamente pelos municípios, estados e redes sociais do país.
É o Candidato Mounjaro.
Ele surge repentinamente mais magro, mais moderno, mais conectado, mais descolado, mais digital, mais popular e, curiosamente, cada vez mais distante de quem realmente é.
O problema não é a transformação.
O problema é que ela parece ter sido feita por inteligência artificial.
O candidato que concorda com tudo
O Candidato Mounjaro possui uma habilidade impressionante.
Ele consegue estar em todos os lados de um debate ao mesmo tempo.
Na segunda-feira é liberal.
Na terça é desenvolvimentista.
Na quarta é conservador.
Na quinta é progressista.
Na sexta está estudando melhor o assunto.
No sábado publica uma reflexão equilibrada.
E no domingo concorda com o comentário que teve mais curtidas.
É uma capacidade de adaptação que faria inveja até aos camaleões.
Ou aos oportunistas.
A dieta da identidade
O Candidato Mounjaro decidiu emagrecer.
Mas não foi apenas a barriga que desapareceu.
Sumiram também as convicções.
As opiniões.
Os posicionamentos.
As discordâncias.
As imperfeições.
Tudo aquilo que fazia dele uma pessoa reconhecível foi substituído por um pacote cuidadosamente embalado para não desagradar ninguém.
O resultado é curioso.
Ele está mais leve.
Mas também muito mais vazio.
O laboratório das tendências
Existe uma sala imaginária onde esses candidatos passam horas trabalhando.
Lá dentro há consultores, especialistas, analistas, influenciadores, gurus digitais e uma infinidade de gráficos coloridos.
Toda semana alguém anuncia uma nova descoberta revolucionária.
“Agora o eleitor quer espontaneidade.”
Pronto.
Todo mundo vira espontâneo.
“Agora o eleitor quer proximidade.”
Pronto.
Todo mundo grava vídeo dentro do carro.
“Agora o eleitor quer emoção.”
Pronto.
Todo mundo chora.
“Agora o eleitor quer autenticidade.”
Pronto.
Todo mundo começa a fingir autenticidade.
O sorriso que não chega aos olhos
Existe uma diferença enorme entre parecer e ser.
O Candidato Mounjaro ainda não percebeu isso.
Ele sorri em todas as fotos.
Abraça crianças.
Cumprimenta idosos.
Toma café em padarias.
Visita obras.
Grava vídeos caminhando.
Faz selfie.
Dá entrevista.
Faz live.
Faz podcast.
Faz reels.
Faz stories.
Faz trend.
Faz dancinha.
Faz tudo.
Menos o principal.
Convencer.
Porque o eleitor pode não entender de marketing político.
Mas entende perfeitamente quando alguém está interpretando um personagem.
A tragédia da perfeição
O marketing político moderno criou uma armadilha.
Muitos candidatos passaram a acreditar que precisam parecer perfeitos.
E pessoas perfeitas têm um problema.
Elas não existem.
O eleitor sabe disso.
Por isso desconfia.
Quando alguém nunca erra, nunca muda de humor, nunca demonstra dúvida, nunca admite falhas e sempre tem a resposta certa para tudo, o cidadão comum não vê um líder.
Vê uma propaganda.
E propaganda demais costuma produzir o efeito contrário.
O algoritmo não vota
Essa talvez seja a notícia mais dura para alguns profissionais da política.
Curtidas não votam.
Visualizações não votam.
Compartilhamentos não votam.
Comentários não votam.
O algoritmo não comparece à urna.
Quem vota são pessoas.
E pessoas ainda possuem um hábito antigo e inconveniente: elas observam coerência.
Observam trajetória.
Observam comportamento.
Observam se aquilo que o candidato fala hoje tem alguma relação com o que ele defendia ontem.
É justamente nesse ponto que muitos Candidatos Mounjaro começam a passar mal.
O efeito colateral mais perigoso
Todo medicamento possui efeitos colaterais.
Na política também.
O principal efeito colateral do excesso de marketing é a perda de credibilidade.
Quando o eleitor começa a enxergar apenas estratégia, deixa de enxergar verdade.
Quando tudo parece calculado, nada parece sincero.
Quando toda fala parece roteiro, toda emoção parece ensaio.
E quando toda emoção parece ensaio, a confiança desaparece.
Menos personagem, mais pessoa
A boa política nunca exigiu perfeição.
Exigiu coerência.
O eleitor não espera encontrar super-heróis.
Nem gênios.
Nem celebridades.
Nem avatares produzidos por consultorias.
Ele espera encontrar pessoas reais.
Com defeitos.
Com opiniões.
Com história.
Com identidade.
Porque, no fim das contas, existe uma diferença fundamental entre um líder e um personagem.
O personagem pode viralizar.
O líder pode ser eleito.
E essa diferença costuma aparecer justamente quando as câmeras são desligadas.
Gabriel Scarpellini é membro fundador da Alcateia Política, é publicitário e especialista em Marketing Político e Comunicação Governamental pelo IDP. Sócio da GAS 360, agência de publicidade, e atua também como consultor em marketing político.



