Por Humberto Tobé e Martha Gaudencio
De acordo com o Censo 2022, São Bernardo do Campo contava com 810.729 habitantes, com estimativa de 841.154 para 2025 (IBGE Cidades). Trata-se de um município de grande porte, com demanda elevada por atenção especializada e necessidade de uma rede de saúde que dê conta de sua população com qualidade.
O município integra o ABC Paulista, terceiro polo econômico do país, em uma região com quase 2,5 milhões de habitantes. Investir em atenção especializada no Sistema Único de Saúde (SUS) não é apenas uma decisão orçamentária — é uma escolha política com consequências diretas sobre a vida de milhões de pessoas.
No Brasil, o acesso a consultas e exames especializados representa, historicamente, um dos principais gargalos do sistema público de saúde, frequentemente denominado na literatura como o “vazio assistencial da média complexidade” (CONASS, 2016).
É nesse contexto que a recente seleção de São Bernardo do Campo para receber uma nova Policlínica Regional, por meio do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), merece análise mais atenta — tanto pela magnitude do investimento quanto pelo que ele representa para a organização da Rede de Atenção à Saúde (RAS) no município e na região do ABC Paulista.
A fila de espera por atenção especializada no SUS é um fenômeno bem documentado. Pesquisa realizada pelo Instituto Qualibest a pedido do SindHosp (2023) — o “Mapa do Acesso da Saúde em São Paulo” — revelou que 83% dos usuários do SUS no estado de São Paulo relataram alguma dificuldade ao acessar os serviços de saúde, sendo o tempo de espera a principal queixa.
Na mesma direção, dados nacionais indicam que nove em cada dez brasileiros da classe C que buscaram consulta especializada pelo SUS avaliaram o tempo de espera como excessivo, e 94% concordaram que essa demora representa risco à vida dos pacientes (CNN Brasil, 2025).
A literatura acadêmica aponta causas sistêmicas para esse quadro. Os serviços especializados estão inseridos em um sistema fragmentado, sem comunicação e coordenação adequadas com outros serviços ambulatoriais e hospitalares, o que afeta diretamente a efetividade e a eficiência desse nível de atenção.
Estima-se que entre 70% e 80% dos portadores de condições crônicas apresentam quadros de menor complexidade que deveriam ser acompanhados pela Atenção Primária à Saúde (APS), mas que acabam sobrecarregando os serviços especializados pela ausência de um elo intermediário resolutivo (CONASS, 2016), e as policlínicas são precisamente esse elo.
O investimento e seu contexto nacional
O Governo Federal selecionou São Bernardo do Campo para receber R$ 30 milhões destinados à construção de uma nova Policlínica Regional pelo Novo PAC — valor composto, nos termos da seleção de 2024, por R$ 17 milhões para construção e R$ 13 milhões para aquisição de equipamentos (Manual de Seleção Novo PAC Saúde, 2025).
Esse investimento se insere em uma estratégia nacional de maior envergadura: na primeira edição do PAC Seleções (2023–2024), o governo federal destinou R$ 11,5 bilhões para obras e equipamentos do SUS em 1.907 municípios de 26 estados mais o Distrito Federal.
Para o ciclo seguinte, o PAC Seleção 2 prevê R$ 6 bilhões adicionais, contemplando 46 novas policlínicas, 130 novos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e 1.533 novas ambulâncias do SAMU em 95% dos municípios brasileiros (Agência Gov, 2025).
Além da policlínica, São Bernardo do Campo também foi contemplada com sete novas ambulâncias para renovação da frota do SAMU 192, uma nova Unidade Básica de Saúde (UBS) e 14 kits de equipamentos para teleconsulta.
O conjunto dos investimentos evidencia o reconhecimento da importância estratégica do município para o sistema regional de saúde.
As Policlínicas Regionais são unidades especializadas de apoio diagnóstico que ofertam consultas clínicas realizadas por equipes médicas e não médicas de diferentes especialidades, definidas com base no perfil epidemiológico da população atendida.
Realizam exames gráficos e de imagem com fins diagnósticos e ofertam procedimentos de saúde de média complexidade — posicionando-se, na lógica das Redes de Atenção à Saúde (Decreto 7.508/2011), como o nível intermediário entre a Atenção Primária e os serviços hospitalares de alta complexidade.
São Bernardo recebe essa agenda em uma posição privilegiada. A cidade já conta com três policlínicas municipais — Alvarenga, Centro e Centro Imagem —, o que demonstra experiência acumulada na gestão deste equipamento.
A cobertura de Atenção Primária à Saúde do município supera tanto a média estadual (42,80%) quanto a nacional (42,10%), segundo dados do Ministério da Saúde — indicador relevante, pois uma APS mais robusta é condição para que a atenção especializada funcione de forma ordenada e eficiente.
A expansão das policlínicas representa, então, uma escolha concreta de política pública orientada pela integralidade, princípio constitucional inscrito no artigo 198 da Constituição Federal de 1988, que define o SUS como um sistema orientado pela universalidade, equidade e integralidade do cuidado.
Quando o nível intermediário da rede falha, o paciente espera demais, repete solicitações, circula por diferentes serviços sem resolução e vê seu quadro de saúde se agravar.
A fragmentação do cuidado, como apontado pela literatura, não é apenas um problema de gestão — é um problema clínico e social que produz sofrimento evitável.
Ao concentrar especialistas, exames e apoio diagnóstico em uma única unidade ordenada pelo perfil epidemiológico da população, a policlínica contribui para qualificar o acesso, reduzir a fragmentação assistencial e ampliar a resolutividade do sistema como um todo.
Nesse sentido, o investimento em SBC não é apenas uma obra de infraestrutura: é uma aposta na continuidade do cuidado, na racionalização do sistema e no direito de quem depende do SUS de ser atendido com dignidade e efetividade.
Quando a obra vem acompanhada de gestão qualificada e integração com a rede existente, não se inaugura apenas um prédio. Inaugura-se uma chance concreta de melhorar a vida de quem mais precisa, e São Bernardo do Campo, com sua trajetória recente na saúde pública, tem as condições para aproveitá-la.
Humberto Tobé é pós-graduado em Gestão da Saúde Pública, trabalha na equipe do ministro Alexandre Padilha no Ministério da Saúde e atua na interlocução com prefeitos, vereadores, gestores municipais e representantes da área da saúde, especialmente dos municípios paulistas.
Martha Gaudêncio é Bacharela e Mestranda em Políticas Públicas pela Universidade Federal do ABC. Também atuou na Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, conectando demandas dos municípios ao Governo Federal.


