Calor extremo, seca prolongada e trânsito: o desafio climático que passa pela mobilidade urbana em Goiânia

Especialista avaliam o impacto da frota urbana na qualidade do ar e discutem se a eletrificação do transporte coletivo avança na mesma velocidade das mudanças climáticas

As ondas de calor cada vez mais intensas, os longos períodos de estiagem e a redução da cobertura vegetal urbana transformaram a crise climática em uma realidade perceptível para quem vive em Goiânia. Em setembro de 2024, por exemplo, a capital registrou umidade relativa do ar abaixo de 12% em diversos dias, índice comparável ao observado em regiões desérticas, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Ao mesmo tempo, o crescimento da frota de veículos e a dependência do transporte individual continuam ampliando as emissões associadas à mobilidade urbana.

A discussão ganha relevância neste 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente. Embora Goiânia tenha sido historicamente reconhecida pela arborização e pelos amplos corredores verdes, especialistas alertam que a expansão urbana e o modelo de deslocamento centrado no automóvel têm aumentado a pressão ambiental sobre a cidade.

Goiânia tenha sido historicamente reconhecida pela arborização e pelos amplos corredores verdes, especialistas alertam que a expansão urbana e o modelo de deslocamento centrado no automóvel têm aumentado a pressão ambiental sobre a cidade.

Dados do Inventário Nacional de Emissões Atmosféricas por Veículos Automotores Rodoviários mostram que as emissões de CO₂ equivalente do transporte rodoviário cresceram cerca de 8% entre 2012 e 2024, acompanhando a expansão da frota nacional. Automóveis responderam por 34% das emissões do setor em 2024. O setor também está diretamente associado à formação de ilhas de calor, ao aumento do consumo energético e à piora da qualidade do ar.

Para Bióloga e Mestre em Biodiversidade na Secretária-Geral de Governo do estado de Goiás, Rayna Chaves, o debate climático precisa incorporar de forma mais clara o papel da mobilidade urbana.

“A mobilidade urbana deve ser tratada como política ambiental, visto que os sistemas de transporte impactam diretamente o clima, a qualidade do ar, a utilização dos recursos naturais e a saúde da população. Ou seja, a forma como as pessoas se desloca nas cidades influencia diretamente a intensificação ou a mitigação desses impactos ambientais.”, afirma.

Frota cresce mais rápido do que a transição energética

Enquanto os efeitos das mudanças climáticas se tornam mais evidentes, a transição para modelos de transporte de baixa emissão ainda avança de forma gradual. Na Região Metropolitana de Goiânia, a implantação dos primeiros ônibus elétricos representou um passo importante para a modernização do sistema. Atualmente, a operação conta com 21 veículos elétricos em circulação e a previsão de ampliação da frota nos próximos anos, dentro do projeto de descarbonização do transporte coletivo conduzido pelo Governo de Goiás.

No entanto, especialistas destacam que o impacto ambiental positivo da medida depende de escala. Embora um ônibus elétrico elimine as emissões locais durante a operação, a participação desses veículos ainda representa uma fração reduzida do sistema de transporte metropolitano.

“A substituição de poucos veículos da frota convencional por ônibus elétricos não é suficiente para reduzir de forma significativa as emissões totais, principalmente em uma cidade marcada pelo crescimento contínuo de automóveis e motos particulares. A eletrificação precisa estar integrada a outras políticas, como incentivo ao transporte coletivo, ciclovias, arborização urbana e planejamento sustentável”, destaca.

O especialista explica que cidades reconhecidas internacionalmente pelos bons indicadores ambientais combinaram eletrificação da frota, priorização do transporte coletivo, incentivo à caminhada, ampliação da infraestrutura cicloviária e restrições ao uso excessivo do automóvel.

Qualidade do ar depende de menos carros nas ruas

Para especialistas em mobilidade, um dos principais desafios das cidades brasileiras é reduzir a dependência do transporte individual motorizado. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) de 2021, o automóvel continua concentrando grande parte dos deslocamentos urbanos nas médias e grandes cidades, contribuindo para congestionamentos, aumento das emissões e consumo excessivo do espaço urbano.

Nesse contexto, o transporte coletivo desempenha papel estratégico não apenas para a mobilidade, mas também para a agenda climática. Um ônibus pode transportar dezenas de passageiros ocupando espaço equivalente ao de poucos automóveis, reduzindo o consumo energético por pessoa transportada e diminuindo a emissão de poluentes.

“O planejamento e o desenvolvimento urbano devem priorizar cidades mais conectadas e eficientes, diminuindo os deslocamentos e a dependência de veículos particulares. Dessa forma, a mobilidade urbana passa a contribuir diretamente para a sustentabilidade ambiental, a saúde pública e a qualidade de vida da população.”, conclui.

Sobre o Mova-se Fórum Nacional de Mobilidade @movaseforumdemobilidade

O Mova-se Fórum Nacional de Mobilidade foi criado em 2021 por especialistas em mobilidade urbana de diversas áreas, com o intuito de discutir e contribuir com soluções para a mobilidade do Brasil. O grupo, que começou com quatro integrantes e hoje conta com mais de 600 profissionais – entre técnicos, pesquisadores e professores do segmento no país, tornou-se destaque em pesquisas e desenvolvimento de conhecimento sobre transporte público, pedestres, vias inteligentes e temas relacionados.

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Da Redação