Conflito no Golfo pressiona petróleo e muda cenário econômico para 2027
O ataque ao aeroporto de Riade marcou a transformação da guerra no Golfo, que deixou de ser um evento de cauda e passou a ser considerado cenário-base para 2027. Entre 6 e 11 de outubro, mísseis e drones lançados por houthis mataram 19 pessoas e feriram mais de 350 em aeroportos da Arábia Saudita, configurando os ataques mais letais contra um país árabe do Golfo desde o início da guerra com o Irã, em fevereiro.
O principal exportador de petróleo do mundo passou de porto seguro a alvo, afetando diretamente a economia global: o petróleo superou US$ 100, a inflação segue resistente e os juros permanecem elevados. O impacto é analisado a partir de três questões: os efeitos para a Arábia Saudita e suas empresas caso o conflito se amplie, o custo para o crescimento global e as mudanças para tomadas de decisão empresarial em 2027.
O conflito começou em 28 de fevereiro, após ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã. Desde então, o Irã retaliou países do Golfo, incluindo refinarias sauditas, e o tráfego pelo Estreito de Ormuz segue ameaçado. Em outubro, 11 navios foram atingidos em Ormuz ou na costa de Omã. Em julho, uma nova frente foi aberta quando a Arábia Saudita retomou bombardeios ao Iêmen, e os houthis responderam com ofensiva que ameaçou o Estreito de Bab-el-Mandeb, porta de saída do Mar Vermelho. Para suprir Ormuz, a Arábia Saudita depende do oleoduto Leste-Oeste, que foi atingido por ataques houthis, ficando temporariamente fora de operação e comprometendo até 4% da oferta mundial de petróleo.
O choque chega às empresas por cinco canais principais: o preço do petróleo, que superou US$ 100 o barril e atingiu picos acima de US$ 108 após ataques à Aramco — diferença considerável frente à projeção do FMI de US$ 78 para 2026; aumento de frete e do prêmio de seguro de guerra; alta no querosene da aviação devido a ataques iranianos à capacidade de refino do Golfo; maior custo de insumos petroquímicos e fertilizantes; e valorização do dólar, dificultando crédito para mercados emergentes.
Os bancos centrais costumam tratar choques de oferta como passageiros, mas a crise chega em um momento de inflação ainda fora das metas. Nos Estados Unidos, a inflação ao consumidor fechou agosto em 3,4% em 12 meses, puxada pela energia. Em setembro, o Fed elevou os juros para a faixa de 3,75% a 4,00% e a ata da reunião indica possível nova alta ainda em 2026. O Copom, no Brasil, reduziu a Selic para 13,75% e projeta IPCA de 5,2% em 2026 e 3,9% em 2027, ainda acima da meta, com a próxima decisão marcada para novembro. O espaço para cortes de juros no Brasil diminui a cada novo ataque na região.
A perspectiva é de que o ciclo de cortes da Selic seja mais curto e lento que o previsto no início do ano, e os juros altos devem ser encarados como uma nova normalidade para o planejamento de 2027.
O desfecho do conflito depende mais do tempo em que a infraestrutura saudita e as rotas marítimas permanecerem comprometidas do que do preço do petróleo em um dia específico. Segundo o FMI, em seu cenário de referência de abril, um conflito curto reduziria o crescimento global de 2026 para 3,1% e elevaria a inflação mundial para 4,4%. No cenário adverso, o crescimento cairia para 2,5% e a inflação alcançaria 5,4%. No cenário severo, a expansão econômica mundial seria de 2% em 2026 e 2027, com inflação acima de 6%. Para o petróleo, a Goldman Sachs estima chance crescente de o Brent superar US$ 120, enquanto a Capital Economics aponta até US$ 130 caso o oleoduto Leste-Oeste permaneça parado por semanas. Após os ataques à capital saudita, a hipótese de guerra curta perdeu força, estabelecendo o conflito prolongado como cenário-base.
A Arábia Saudita enfrenta o paradoxo de ter lucros elevados com o petróleo, mas só ganha pelo volume escoado. Com exportações comprometidas, cada dia de oleoduto parado ou navio desviado adia receitas e eleva custos de proteção, afetando empresas como a Aramco. Bancos como SNB e Al Rajhi, ligados a megaprojetos da Visão 2030, podem ver crescimento desacelerado se o governo priorizar defesa e segurança. O turismo, setor chave para diversificação econômica saudita, foi afetado pela recomendação de países como Reino Unido, França, Alemanha, Austrália e Canadá para evitar viagens ao país, além de cancelamento de voos por companhias aéreas. O orçamento público para 2026 já previa déficit de 166 bilhões de riais; elevação de gastos militares e instabilidade nas receitas de exportação pressionam o fundo soberano PIF a selecionar prioridades.
O FMI projeta crescimento global de 3,0% em 2026 e de 3,4% em 2027, supondo que o choque energético se dissipe. O relatório de outubro, previsto para 13 de outubro, deve apontar o quanto essa projeção resistiu à recente escalada. A Ásia é a região mais vulnerável, já que China, Índia, Japão e Coreia do Sul são os principais destinos do petróleo saudita. O FMI já estima desaceleração chinesa para 4,6% em 2026, parcialmente devido ao petróleo mais caro.
Para as empresas, o custo da guerra aparece nas linhas de energia e combustível, frete e seguro, capital de giro — com aumento de estoques de segurança —, custo da dívida, câmbio e demanda enfraquecida pela inflação. No Brasil, os maiores beneficiados são petroleiras e exportadores de commodities devido a preços e câmbio, enquanto empresas aéreas, varejistas, logísticas, indústrias químicas dependentes de nafta e companhias alavancadas são prejudicadas. O agronegócio se beneficia nas exportações, mas arca com fertilizantes mais caros. A política de preços da Petrobras torna-se um risco político adicional diante da alta do combustível.
Para 2027, indicadores operacionais a serem monitorados incluem o status do oleoduto Leste-Oeste e do tráfego em Ormuz e Bab-el-Mandeb, prêmios de seguro de guerra e frete na rota Golfo-Ásia, formato da curva do petróleo, além dos desdobramentos das próximas reuniões do Fed, Copom e divulgação do WEO do FMI.
Entre as ações recomendadas, estão: revisar orçamentos com petróleo acima de US$ 100 e Selic acima de 12% como premissas; alongar e travar dívidas; proteger câmbio e insumos por hedge e contratos indexados; diversificar fornecedores e rotas para mais previsibilidade, mesmo a custo maior; e preservar caixa, pois liquidez é diferencial em ambiente de juros altos. O principal aprendizado de 2026 é que o risco geopolítico passou a ser custo relevante para empresas, exigindo planejamento contínuo diante das incertezas no Golfo.


