Atenção à saúde dos pequenos

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A obesidade infantil já pode ser considerada uma epidemia mundial de difícil reversão. Começa em casa a prevenção, com hábitos alimentares saudáveis. A Alego analisa propostas para o enfrentamento do problema.

A Semana Estadual de Combate e Prevenção à Obesidade Infantil foi estabelecida pela Lei Estadual nº 20.456, sancionada em 22 de abril de 2019. Advinda do projeto de lei 2263/18, de iniciativa do ex-deputado Simeyzon Silveira (PSD), o dispositivo legal estabelece uma campanha para sensibilizar sobre os riscos da obesidade na infância. 

A partir dessa data, a Semana de Combate e Prevenção à Obesidade Infantil ficou incluída no calendário oficial do Estado de Goiás, a ser realizada, anualmente, na semana do dia 7 de abril, Dia Mundial da Saúde. Ela tem o objetivo de conscientizar toda a população sobre o assunto, por meio de procedimentos informativos e educativos sobre os problemas causados pela obesidade infantil, suas consequências e formas de evitá-la ou tratá-la. 

No Brasil, o Atlas da Obesidade Infantil e a Organização Mundial da Saúde (OMS) destacam que três a cada 10 crianças, entre cinco e nove anos, estão acima do peso. Dessa forma, a projeção aponta que, até 2030, o País deve ocupar a 5ª posição no ranking de países com o maior número de crianças e adolescentes com obesidade, com poucas chances de reverter essa situação se nada for feito, pois a obesidade infantil já pode ser considerada uma epidemia mundial de difícil reversão, dada a complexidade de seus condicionantes.

Dessa forma, o cenário reflete a necessidade de políticas públicas e de um profundo debate social sobre esta temática específica, a fim de estimular um conjunto de ações de prevenção e tratamento, com o objetivo de conscientizar a população sobre a importância de hábitos saudáveis antes mesmo do nascimento. O avanço da obesidade, na última década, parece demonstrar a ineficácia das políticas públicas implementadas no Brasil, muito devido ao déficit de programas de prevenção e tratamento da obesidade pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Dados de 2022, consolidados pelo DATA SUS, mostram o quadro das crianças brasileiras com relação à obesidade, considerando aquelas menores de 10 anos. Destas, estima-se que 41,81% tenham excesso de peso, 6,02% tenham obesidade e, ainda, 9,62% já tenham a obesidade grave. Preocupada com o quadro, a médica endocrinologista pediátrica e docente do departamento de pediatria da Universidade Federal de Goiás (UFG), Renata Machado Pinto, entende que, “longe de ser apenas uma questão estética, a obesidade é uma importante causa de morbidade que precisa da máxima atenção de toda a sociedade”. 

Mas o que é a obesidade infantil e quais suas implicações?

Conforme explica a especialista, a obesidade é uma doença neurocomportamental que se caracteriza pelo excesso de gordura corporal, na qual há alterações hipotalâmicas nos centros de controle da fome, saciedade e gasto energético. É uma patologia multifatorial decorrente da interação de fatores genéticos e ambientais. Estudos comparando gêmeos idênticos, em ambientes diferentes, mostram que a genética é responsável por cerca de 50% do Índice de Massa Corporal (IMC), mas é importante observar que a maior parte das crianças com obesidade está inserida em famílias com vários membros também obesos, cujos hábitos estão, da mesma maneira, inadequados. 

“O ambiente interfere no risco de desenvolvimento de obesidade desde antes da concepção. São fatores de risco para obesidade pediátrica: obesidade materna e paterna pré-gestacional, grande ganho de peso materno durante a gestação, diabetes mellitus gestacional e tabagismo durante a gravidez. Logo após o nascimento, são fatores de risco para obesidade: prematuridade, baixo peso ou excesso de peso para a idade gestacional, ausência de amamentação nos primeiros 150 dias e alto consumo de proteínas”, revelou a médica.

Ela destaca que fatores de risco para obesidade em idades posteriores incluem: excesso alimentar, preferência por fast-food, excluir o café da manhã, comer na madrugada, excesso de tempo de tela (televisão, computador e celulares), sedentarismo, redução no tempo de sono e menor variabilidade na temperatura ambiente (pelo uso de ar-condicionado e aquecedores), alterações no microbioma (micro-organismos que vivem no corpo humano) e exposição a disruptores endócrinos (substâncias que alteram os hormônios, presentes em plásticos, derivados de petróleo, cosméticos, defensivos agrícolas e outros).

De acordo com a estudiosa, a criança obesa está sujeita a apresentar complicações em diversos órgãos e sistemas: endócrino-metabólicas, cardiovasculares, gastrointestinais, pulmonares, ortopédicas, neurológicas, dermatológicas, renais e psicológicas. Além de comprometer a qualidade de vida, a obesidade se associa a 3,4 milhões de mortes por ano, reduzindo a expectativa de vida não só de adultos, mas também de crianças com obesidade grave.

“Essas comorbidades podem se apresentar ainda na infância: em torno de 60% dos escolares obesos apresentam ao menos um fator de risco cardiovascular (hiperinsulinemia, resistência insulínica, pré-diabetes, diabetes, dislipidemia, hipertensão arterial, doença hepática não alcóolica e fatores pró-trombóticos) e entre 20 a 25% delas têm dois ou mais desses fatores. Sobrepeso e obesidade, na adolescência, são responsáveis por até 20-25% das mortes cardiovasculares nos adultos”, alerta a especialista.

Para piorar ainda mais a situação, a médica revela que, além das questões físicas, a obesidade, na infância, compromete também a saúde mental: crianças e adolescentes obesos possuem sentimentos de solidão e depressão, agressividade, sofrem 3 vezes mais bullying que seus pares de peso típico, entre outros. Tudo isso leva à menor participação escolar, pior performance educacional, culminando em evasão escolar. A obesidade infantil pode, inclusive, impactar o nível educacional e o potencial de renda futura.

Por fim, a endócrino pediatra explica que o tratamento da obesidade infantil, via de regra, requer mudança de hábitos de vida de toda a família, uso de medicamentos para tratar condições associadas à obesidade, como diabetes, alteração de triglicérides e colesterol, compulsão alimentar, transtorno de ansiedade, entre outros. Na grande maioria dos casos, a especialista entende que o ideal é o acompanhamento de uma equipe multiprofissional, para que todo o suporte seja oferecido de maneira adequada.

Quais as melhores formas de prevenção?

A nutricionista Vanessa Mathias Gonzaga e Castro entende que a prevenção da obesidade infantil passa por hábitos saudáveis de toda a sociedade, tendo a família como o ponto central. A prevenção se inicia antes mesmo da gestação, com peso saudável dos pais, passa por uma gravidez saudável, amamentação e desmame adequado. É importante lembrar que uma criança obesa é, antes de tudo, uma criança, e, muitas vezes, ela não tem maturidade suficiente para lidar com mudanças radicais. Por isso, o ideal é que as modificações no cardápio sejam realizadas aos poucos e proporcionem uma experiência prazerosa para a criança.

Entretanto, o ideal, segundo a especialista, é que a família tenha condições de preparar suas refeições em casa, diminuindo a possibilidade de consumo de fast-food e ultraprocessados, e, consequentemente, por meio da redução do consumo de gorduras e açúcares e da oferta de uma boa variedade de frutas, verduras e legumes – alimentos in natura. O momento das refeições também deve ser transformado em um evento agradável, em que haja compartilhamento de boas experiências e histórias. Além dos bons hábitos alimentares, a prática da atividade física, na primeira infância, também pode fazer toda a diferença na prevenção da obesidade infantil. 

Castro orienta que, quando os adultos forem servir as crianças, a quantidade colocada no prato também deve ser uma preocupação. As porções devem ter o tamanho apropriado, uma vez que elas não precisam de tanta comida quanto os adultos. Uma alternativa é servir porções pequenas e deixar a criança pedir mais se ainda estiver com fome. As crianças só devem comer até ficarem satisfeitas, e os adultos não devem forçar para que ela termine tudo que está no prato, devem dar a liberdade para que ela deixe comida no prato quando já estiver saciada.

A nutricionista também alerta que outra importante dica é desencorajar crianças a comerem na frente das telas de TV, computador, tablets ou smartphones. Ela entende que isso pode levar à diminuição da consciência da quantidade de alimento ingerida, já que a criança está atenta a outras coisas e perde a noção daquilo que está ingerindo. Os adultos devem, além disso, evitar esse tipo de comportamento, para dar um bom exemplo aos jovens. O foco é ter uma alimentação saudável, beber bastante água, praticar exercícios e ter um sono adequado, além de manter as crianças em movimento, permitindo exposição mínima por dia aos eletrônicos, de acordo com a faixa etária. 

“Todas as questões alimentares também podem refletir questões emocionais e o acompanhamento de um psicólogo ou até mesmo psiquiatra pode ser necessário, dependendo de cada caso. É na infância que o indivíduo desenvolve uma ideia de corpo que pode prevalecer por toda a vida, auxiliando na manutenção de um organismo saudável. O que não se pode perder de vista é que as questões alimentares devem ser tratadas assim que forem percebidas, pois elas podem evoluir para compulsões ou transtornos alimentares mais graves. Na Semana Estadual de Combate à Obesidade Infantil, fica o alerta para que todas essas questões sejam discutidas e a sociedade esteja atenta na busca de soluções”, pondera Castro.

Projetos, na Alego, abordam obesidade infantil

Sintonizados com as questões relacionadas à infância, os deputados estaduais da Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (Alego) se empenham para promover políticas públicas que contemplem essa temática. Por conta disso, na Alego, tramitam projetos relacionados à obesidade infanto-juvenil que merecem destaque. O primeiro deles é a proposição nº 44/24, que busca incluir o conteúdo de educação alimentar e nutricional na grade escolar da matéria de ciências e biologia no ensino fundamental, nas escolas estaduais do Estado de Goiás, para prevenção e conscientização da obesidade.

De autoria do deputado estadual André do Premium (Avante), a matéria apresenta, em sua justificativa, a determinação de conscientizar a sociedade sobre as razões relacionadas à doença e pretende incentivar os hábitos de uma alimentação saudável no cotidiano dos estudantes goianos, para um aperfeiçoamento da saúde e bem-estar. “A prevenção ainda é a melhor forma de tratar a doença”, destaca o parlamentar.

Já no processo nº 724/23, o deputado Antônio Gomide (PT) busca instituir ações de enfrentamento à obesidade infanto-juvenil, com o intuito de identificar precocemente casos de obesidade e sobrepeso entre crianças e adolescentes, promovendo ações de conscientização, educação alimentar e incentivo à prática de atividades físicas. 

Para tanto, o parlamentar preconiza que a Secretaria Estadual de Educação e Secretaria Estadual de Saúde desenvolva parcerias com os diversos profissionais da saúde – nutricionistas, educadores físicos e psicólogos – para oferecer palestras, suporte e atividades educativas relacionadas à prevenção da obesidade e promoção da saúde nas escolas públicas do Estado.

Diante de um cenário em que cada vez mais crianças entram na composição dos índices de obesidade infantil, o parlamentar entende que a preocupação com a qualidade de vida se justifica, já que a doença promove o desenvolvimento de inúmeras outras enfermidades, tais como: pressão alta, diabetes, problemas nas articulações, dificuldades respiratórias, gota, pedras na vesícula e até algumas formas de câncer. Agência Assembleia de Notícias

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