Por Nilson Hashizumi
Na manhã seguinte à eleição, uma mãe fará as contas antes de ir ao supermercado. Um jovem procurará trabalho. Alguém continuará esperando uma cirurgia.
O resultado estará conhecido. A vida continuará exigindo respostas.
A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro carrega experiências, entregas e responsabilidades muito diferentes. É preciso olhar além dos nomes na urna.
Uma trajetória que chegou à mesa
Lula conheceu a pobreza antes de combatê-la como presidente. Retirante nordestino, metalúrgico, dirigente sindical, fundador do PT e deputado constituinte, tornou-se uma liderança internacional. Cumpriu dois mandatos, ajudou a eleger Dilma Rousseff e está concluindo o terceiro.
Há resultados para comparar. Segundo dados do IBGE, entre 2023 e 2024, 8,6 milhões de pessoas saíram da pobreza. O Brasil voltou a sair do Mapa da Fome em 2025 e permaneceu fora em 2026. São conquistas coletivas, apoiadas em políticas públicas, trabalho e renda.
Criado em seu primeiro governo, o Prouni beneficiou mais de 3,6 milhões de estudantes ao longo de vinte anos. Para famílias de baixa renda, o diploma abriu possibilidades profissionais antes distantes. Não garantiu prosperidade a todos, mas ampliou oportunidades de melhorar a renda pessoal e familiar.[20]
Essas mudanças têm rosto. São a comida que voltou, o filho que chegou à faculdade, a possibilidade de imaginar outro futuro.
Herança não substitui entrega
Flávio exerceu quatro mandatos estaduais e chegou ao Senado em 2019. Sua principal força política é a herança do pai: identidade, organização e eleitores mobilizados. Jair Bolsonaro foi condenado por crimes ligados à tentativa de golpe; essa condenação não se transmite ao filho.
O balanço parlamentar merece cobrança. Levantamento do UOL de maio registrava dois projetos de autoria principal aprovados no Senado em sete anos, nenhum convertido em lei. Sua defesa ressalta coautorias e emendas; houve também relatorias relevantes. Ainda assim, a produção própria é limitada para quem pretende comandar o país.
Também há questões de reputação. Flávio foi denunciado no caso das “rachadinhas” por crimes que incluíam peculato e lavagem de dinheiro. O caso foi encerrado após anulação de provas, sem condenação. Ele nega irregularidades.
Homenageou Adriano da Nóbrega, apontado pelo Ministério Público como miliciano, e empregou sua mãe e mulher. São relações documentadas; não comprovam participação de Flávio em milícia.
Reportagem publicada em 29 de setembro acrescentou alegações de participação em festas com garotas de programa. Isso não comprova crime. Politicamente, exige examinar a coerência entre a conduta atribuída e o discurso conservador.
Quem vota, quem pode mudar
Na Quaest de setembro, Lula tinha vantagem entre mulheres, pessoas de menor renda, nordestinos, católicos, pretos e pardos. Flávio, entre homens, evangélicos, brancos, pessoas de renda mais alta e eleitores do Sul. São tendências, não destinos.
Entre as alternativas mais competitivas predominam candidaturas de direita ou conservadoras, inclusive moderadas. O antipetismo poderá aproximar seus eleitores no segundo turno. O Datafolha encontrou, entre apoiadores de Zema, Caiado, Renan Santos e Augusto Cury, 43% para Flávio e 30% para Lula.
Essa convergência poderá decidir a eleição. Não significa transferência automática nem transforma todo conservador em extremista.
A soberania também estará na urna
Há uma disputa que atravessa as fronteiras. Donald Trump, referência para forças conservadoras e de extrema direita em diferentes países, procura ampliar a influência dos Estados Unidos sobre decisões políticas nas Américas. No Brasil, essa pressão ganhou uma expressão concreta: em julho de 2025, seu governo anunciou tarifas que somavam 50% e vinculou expressamente a medida ao processo contra Jair Bolsonaro.
Quando uma potência usa o comércio para pressionar decisões da Justiça de outro país, ameaça sua autonomia. O prejuízo pode chegar ao emprego, à produção e à renda de brasileiros que nada têm a ver com os interesses de uma família política.
Eduardo Bolsonaro integra essa história. Morando nos Estados Unidos desde 2025, perdeu o mandato de deputado federal por São Paulo em dezembro daquele ano, por faltas às sessões. Em 21 de setembro de 2026, foi demitido do cargo de escrivão da Polícia Federal por abandono de cargo.
Em Washington, atua pela adoção de medidas contra autoridades brasileiras. Neste setembro, ele e Paulo Figueiredo anunciaram que buscariam a retomada de sanções contra Alexandre de Moraes e medidas contra outros ministros do STF. Apresentam-se como dissidentes perseguidos; sua atuação, porém, precisa ser examinada pelo efeito sobre o país que Eduardo foi eleito para representar.
O risco de interferência eleitoral também provocou alertas de parlamentares dos próprios Estados Unidos, que cobraram do governo Trump respeito ao resultado brasileiro.
Para 2027, a diferença importa. Pela trajetória diplomática e pelas posições de campanha, Lula tenderia a preservar autonomia e diversificar parceiros. A proximidade política dos Bolsonaro com Trump pode facilitar interlocução, mas traz uma cobrança incontornável a Flávio: demonstrar independência quando os interesses brasileiros contrariem Washington.
Ser conservador não obriga ninguém a aceitar tutela estrangeira. Defender a soberania deve reunir brasileiros de diferentes posições políticas.
O mandato começa quando a promessa é cobrada
Flávio promete privatizações, cortes administrativos e endurecimento criminal. Seus apoiadores esperarão segurança e menos burocracia; precisarão cobrar proteção dos serviços essenciais.
Lula oferece continuidade da valorização do salário-mínimo, do SUS e dos investimentos. Tem experiência e políticas em andamento, mas carrega desgaste e falhas que exigem resposta. Seus eleitores esperarão que os avanços alcancem quem ainda ficou para trás.
Guerras pressionam combustíveis, fertilizantes e alimentos. O Brasil pode ampliar mercados na Europa, no Oriente Médio, na África e nas Américas, desde que combine diplomacia, produção e responsabilidade ambiental.
Exportar mais precisa melhorar a vida aqui. Reduzir a dependência de fertilizantes importados, investir em energia e atender às exigências sanitárias e ambientais dos compradores ajudará a transformar oportunidades externas em segurança para a população. Governar exige negociação com o Congresso e compromisso com quem votou no adversário.
O Brasil que sairá das urnas precisará alimentar seu povo e decidir seu próprio caminho. Nenhuma dessas responsabilidades pode ser entregue a uma potência estrangeira.
Porque a esperança só vira conquista quando atravessa a porta e chega à mesa.
Sobre o autor
Nilson Hashizumi é profissional de Marketing pela ESPM, jornalista pela Cásper Líbero, fotógrafo pela Focus SP e gestor de cultura pelo CPF/SESC, com MBA em Comunicação Governamental e Marketing Político pelo IDP. Após 30 anos de atuação em corporações e na iniciativa privada, ingressou nas campanhas políticas em 2018. Atua em todo o Brasil, com campanhas vencedoras de candidaturas majoritárias e proporcionais em São Paulo, Minas Gerais e Pará. É cofundador da Alcateia Política e associado ao CAMP.
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