No início de fevereiro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) encerrou um ciclo de audiências públicas para definir as regras das eleições de 2026. Sob o comando dos ministros Cármen Lúcia e Nunes Marques, o tribunal debateu minutas de resoluções que propõem multas para o uso de conteúdo manipulado e exigem transparência das plataformas. O TSE tem até o dia 5 de março para aprovar essas diretrizes.
A discussão sobre o uso da inteligência artificial ganhou, com justiça, espaço e volume. Fala-se em urgência, riscos à democracia e manipulação do eleitor. O alerta faz sentido, mas há uma pergunta que quase não aparece nas mesas do Tribunal: debater resoluções e tentar regular a tecnologia resolve, de fato, o problema?
A crença dominante é que novas regras seriam capazes de conter os abusos. Que ao delimitar o uso da IA, o processo eleitoral estaria protegido. O ponto cego está exatamente aí: o debate jurídico concentra toda a sua força em tentar frear a ferramenta, mas ignora completamente a vulnerabilidade do alvo.
A inteligência artificial não é a origem do desequilíbrio; ela apenas acelera, amplia e sofistica práticas de persuasão em um terreno que já estava fragilizado. O verdadeiro “calcanhar de Aquiles” das eleições não nasce do código do algoritmo, mas da fragilidade cognitiva de quem recebe a informação.
O Brasil vive uma contradição brutal que a Justiça Eleitoral não consegue legislar com resoluções ou multas: nós encerramos o ano com mais de 270 milhões de linhas de celular ativas no país, segundo dados oficiais da Anatel. A tecnologia chegou na velocidade da fibra ótica, mas o senso crítico não acompanhou o mesmo ritmo. É nesse vácuo que nasce o que chamo de Analfabeto Digitalizado.
Não estamos falando do eleitor que não tem acesso à internet. Pelo contrário, o Analfabeto Digitalizado domina a interface: ele sabe clicar, rolar o feed e compartilhar. Mas ele não decodifica a informação. Essa vulnerabilidade é matemática: segundo o mais recente estudo do Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF), 29% da população adulta brasileira é considerada analfabeta funcional. Somando-se a isso os níveis mais básicos de letramento elementar, chegamos a uma fatia de quase 60% de brasileiros que leem o mundo de forma estritamente literal.
Eles não entendem ironia, não percebem o contexto e são reféns de gatilhos emocionais básicos. Nesse cenário, qualquer conteúdo manipulado encontra terreno fértil. Se um áudio gerado por IA dispara o gatilho do medo ou da indignação, para esse eleitor, ele se torna uma verdade absoluta. Compartilha-se antes de refletir. Acredita-se antes de checar. A máquina inimiga apenas fornece a munição; é o eleitor desarmado quem puxa o gatilho da desinformação.

O Mapa da Vulnerabilidade Cognitiva do Eleitor Brasileiro
Essa fragilidade cognitiva não é uma suposição teórica, é uma realidade estatística mensurável. A radiografia mais recente do Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF 2024) comprova materialmente a tese do “Analfabeto Digitalizado”. Ao somarmos os três níveis mais básicos de letramento — analfabeto, rudimentar e elementar —, descobrimos que quase 65% da população adulta brasileira possui uma capacidade de interpretação restrita ao literal, incapaz de entender nuances, ironias ou cruzar informações básicas. O quadro abaixo desenha o mapa exato dessa vulnerabilidade massiva que a inteligência artificial irá explorar nas urnas:
NÍVEL ANALFABETO (7%)
A Barreira Total Não conseguem ler palavras ou frases, dependendo exclusivamente de estímulos audiovisuais. No ambiente digital, apresentam extrema dificuldade operacional (touch, scroll). São vulneráveis a manipulações sensoriais diretas (como áudios alarmistas), pois não possuem qualquer capacidade de verificação textual.
NÍVEL RUDIMENTAR (22%)
O Leitor Literal Compreendem apenas informações explícitas em frases muito curtas. São os “leitores de manchete” que não abrem a notícia. No contexto político, acreditam na primeira leitura literal de uma mensagem de WhatsApp, sem capacidade de entender contextos ou nuances.
NÍVEL ELEMENTAR (36%)
O Gigante Vulnerável (A Maioria) Conseguem ler textos médios e fazer pequenas inferências, mas sua compreensão é rasa. Aceitam narrativas simples que pareçam lógicas na superfície. É o público-alvo preferencial das fake news estruturadas, pois não possuem repertório para cruzar fontes ou identificar manipulações ligeiramente mais elaboradas.
NÍVEL INTERMEDIÁRIO (25%)
O Início do Filtro Crítico O ponto de virada. Conseguem captar informações implícitas, ironias e figuras de linguagem. Começam a confrontar o texto com o senso comum e percebem argumentos. São mais resistentes a mentiras óbvias, mas ainda podem cair em manipulações complexas que confirmem seus vieses preexistentes.
NÍVEL PROFICIENTE (10%)
A Minoria Blindada O topo da escala. Capazes de identificar distorções, tendências e vieses em textos complexos e dados quantitativos. São os únicos com ferramentas cognitivas plenas para avaliar ativamente a veracidade de uma informação, detectar deepfakes sofisticados e resistir à engenharia da desinformação.
Regular pode, e deve
Reduzir os excessos visíveis, mas não resolve o essencial. Uma canetada jurídica, por mais bem-intencionada que seja, não ensina a distinguir um fato de uma montagem de voz. Não desenvolve repertório. E talvez por isso a sensação de segurança gerada pelas audiências públicas em Brasília seja perigosamente ilusória para as campanhas: cria-se a ideia de controle judicial, enquanto a manipulação real ocorre direto na mente do eleitor em milésimos de segundo.
A pergunta que deveria orientar o debate e tirar o sono dos estrategistas políticos e advogados talvez seja mais desconfortável: o que acontece com o seu candidato quando a sociedade, altamente conectada, não está preparada para interpretar criticamente o que consome?
Enquanto a resposta for ignorada, a ilusão de que a regulamentação será um escudo rápido o suficiente pode ser o erro mais caro de 2026. O desafio não é apenas normativo. A lei vai tentar punir quem aperta o botão, mas não vai proteger a tempo o mandato de quem foi atingido.
O autor:
Christian Jauch
Estrategista político com duas décadas de experiência na integração entre tecnologia e comunicação em campanhas de todas as esferas (municipal, estadual e federal). Atualmente, é especialista na aplicação tática de Inteligência Artificial para blindagem e estratégia eleitoral. Há 12 anos, também lidera campanhas para a OAB. Membro do CAMP (Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político) e co-fundador da Alcateia Política. Mais artigos: www.christianjauch.com.br

